Diálogos, Peças e Performances iniciam a Ocupação Funarte 2011

foto por Thiago Sabino

O projeto Teatro Visual: o que ainda não tínhamos visto? apostou, desde sua idealização, no potencial que uma programação composta por diálogos, peças, performances e oficinas possui. A amplitude de territórios a serem explorados pelo tema proposto ganha consistência em sua totalidade.

O Núcleo Resta Pouco a Dizer, com o objetivo de oferecer ao público brasiliense uma programação acessível, mas que também despertasse inquietações, iniciou o ciclo de atividades com peças curtas e performances seguidas de diálogos conduzidos por estudiosos da cena artística contemporânea. Dessa forma, o que acabou de ser assistido adquire força a partir de questões suscitadas nesse espaço.

Após a abertura do projeto, que reuniu mais de 500 pessoas na FUNARTE Brasília, os outros dias seguiram com intensa presença de um público participativo, composto, em sua maioria, por alunos e professores de áreas relacionadas, admiradores do trabalho dos Irmãos Guimarães e curiosos do enigmático autor central do projeto: Samuel Beckett.

Antônio Araújo (USP-SP), fundador do Teatro da Vertigem e responsável pelo diálogo no sábado seguinte à abertura (foto), ilustrou sua fala sobre a encenação performativa com vídeos que conectaram o público com as idéias de entrecruzamento de linguagens, work in progress e a autobiografia do encenador, questões bem representadas no famoso trabalho apresentado no Festival D’Avignon “La Chambre D’Isabella”.

La Chambre D'Isabella

A peça curta de Samuel Beckett, Ir e Vir, com direção de Adriano e Fernando Guimarães abriu o domingo com a estranheza que esse texto/imagem costuma causar. Três mulheres, um círculo de luz que se dissipa a medida que se afasta do centro e um segredo que não se revela. Flo, Vi e Ru, personagens suspensas no tempo e espaço, nenhuma verdade, apenas lembrança. As bordas acinzentadas desse lugar indefinido, os chapéus que cobrem o olhar e as vozes despersonalizadas, são elementos que metaforizam o conceito de “Interterritorialidades” proposto por Lílian Amaral (USP-SP), que conduz o diálogo do dia. A cena contemporânea e suas trocas fluidas, onde não se cabe definições, nada é só aquilo que o nomeia e os limites estão em trânsito.

foto por Thiago Sabino

Em consonância com o que foi abordado nos dias anteriores, Marília Panitz (UnB-DF) fecha esse ciclo de diálogos iniciais. Conhecedora do trabalho dos Irmãos Guimarães com a obra de Samuel Beckett desde seu início, há quase 15 anos, Marília, parte do ponto de vista das Artes Visuais para nos conduzir a uma leitura fascinante em torno de um elemento recorrente nas encenações de Adriano e Fernando: as caixas cubo, que vimos tanto na performance Respiração -,  no sábado, quanto nessa segunda-feira, em Respiração +.  Na retrospectiva que Marília Panitz faz das peças, performances e instalações dos diretores inspirados pelo universo beckettiano, ela explora os conceitos e referências que culminam nessas caixas como representação de um espaço negativo, que retira o personagem de uma narrativa e o emoldura em um espaço de suspensão. Essas caixas são preenchidas de um silêncio que se pode escutar, que muito diz, apesar do pouco que se resta a dizer.

foto por Ismael Monticelli

Essa foi apenas a primeira semana de ocupação do Núcleo Resta Pouco a Dizer em parceria com o grupo Pigmalião Escultura que Mexe (BH). As oficinas I e II começaram e. em Março, a programação conta ainda com um diálogo sobre a construção do movimento no teatro de marionetes e uma oficina sobre a composição da marionete e a construção do movimento, ministrada pelo grupo mineiro. Para participar da oficina III envie um e-mail para teatrovisual@gmail.com com seu currículo artístico resumido.

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Abertura de Ocupação atrai mais de 500 pessoas ao Teatro Plínio Marcos.

Foto de Thiago Sabino

Mais de 500 pessoas de todos os segmentos e interesses comungaram uma insuspeitável curiosidade comum: o desejo de conhecer mais sobre os procedimentos, meandros, “segredos” de uma das artes mais antigas produzidas pela humanidade, o teatro!

A ocasião foi a abertura do projeto de ocupação do Teatro Plínio Marcos,  FUNARTE-Brasília (com co-patrocínio do Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB), por duas companhias que enveredaram pela investigação sobre o Teatro Visual: o que ainda não tínhamos visto? , lançada na noite desta sexta-feira com entrada aberta ao público.

A animada platéia prestigiou Vera Holtz, a conhecida atriz brasileira, em uma enigmática performance cujo peso, desencanto e melancolia a tornou quase irreconhecível. Um silêncio grave dominou por muitos minutos aqueles que vinham conhecer mais uma faceta da profissional que, desenvoltamente, parecia tão familiar em novelas, filmes, peças publicitárias - mas que, na noite de ontem, revelava-se capaz de conduzir a todos, delicadamente, a uma penosa reflexão sobre a morte. Certamente esta surpresa levou à demorada salva de palmas que agraciou a atriz, e que se repetiu generosamente em muitos outros momentos do evento.

Também superando a expectativa geral, Fábio de Souza Andrade, o professor universitário e tradutor de Samuel Beckett no Brasil, arrebatou a audiência com sua indisfarçável paixão pelo autor e a árida obra. A vista de personagens esfaceladas, destituídas de seu “eu”, a pausa, a exaustão, os horários limítrofes do dia, o enclausuramento, dentre tantos aspectos – a complexidade da poesia beckettiana – entregava-se docilmente ao público, leigo ou não, que assimilava as informações embaladas na intensidade do palestrante. “Um autor difícil explicado de maneira fácil, acessível”, era comentário comum nos círculos que se formaram no coquetel que encerrou com simpatia a bem-sucedida primeira noite de residência artística.

 

E na noite deste sábado, 29, Vera Holtz novamente atuará, desta vez na performance Respiração Menos. Será sucedida por Antônio Araújo, professor da USP e fundador do “Teatro da Vertigem”, que desvelará aspectos da “encenação performativa”. As companhias residentes Resta Pouco a Dizer e Pigmalião Escultura que Mexe mais uma vez esperam recepcionar os brasilienses em uma noite de cultura, conhecimento, diversão e beleza!

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TEATRO VISUAL: O QUE AINDA NÃO TÍNHAMOS VISTO?

O projeto Teatro Visual: o que ainda não tínhamos visto? consiste em um ciclo de atividades que buscará investigar as rápidas e contundentes transformações sofridas pela linguagem teatral ao longo do século XX, seus questionamentos, formas de resistência e múltiplas expressões, com ênfase no chamado Teatro Visual.

Precursora da pluralidade fragmentária do teatro contemporâneo, denominado “teatro pós-dramático”, pelo estudioso Hans-Thies Lehmann, ou “teatro performativo”, como prefere a pesquisadora Josette Féral, a vertente denominada Teatro Visual radicalizou no hibridismo por meio do qual os elementos da cena – figurinos, cenários, objetos, movimentos, gestos, corpos, sonoridades, cores, música, iluminação – deslocam os sentidos possíveis da encenação; podemos aí identificar um dos primeiros momentos em que o texto dramático é desestabilizado, na des-hierarquização que prevalecerá até nossos dias.

A experimentação e a visualidade proporcionam, mais que narrativas lineares de fábulas aristotelicamente acabadas, espécies de “paisagens em movimento”, emblemas, presenças, num desafio à tessitura dos signos. Artisticamente, a própria linguagem se permite esvair, diluir em outras, em lugar de requerer autonomia ou delimitar fortemente novas fronteiras.

Em consonância com estes e mais pressupostos desse teatro imagético e sensorial, Samuel Beckett transpõe a fronteira entre o dramático e o pós-dramático, em obras de sintaxe esfacelada não somente estilística, mas também ontologicamente. Os personagens, sombras ou emblemas de significado obscuro, dividem o protagonismo com luzes, sons e objetos que se revelam tão potentes quanto eles, às vezes submetendo-os, numa até então inédita desantropologização da cena.

Na realização dessas propostas, o Núcleo de Pesquisa criado por Adriano e Fernando Guimarães empreende uma nova arqueologia da cena, arriscando-se em escavações que testam a densidade dos materiais e procedimentos cênicos e suas relações com o texto. Performances como Respiração Embolada, Respiração + e Respiração – sobrepõem composições sonoras, dramaturgias visuais, performatividade, intérpretes em situação de risco e desconstruções, revelando a ousadia da dupla de criadores.

Além dos trabalhos dos diretores brasilienses, a companhia convidada Pigmalião Escultura que Mexe (MG) transporá para a técnica de marionetes uma livre-adaptação de Esperando Godot em abordagem lúdica, incomum no tratamento da obra prima.  A exemplo de Tadeusz Kantor, os objetos cênicos são ressignificados, inesperadamente ampliados, tendo transfigurados seus atributos originais e sendo colocados a serviço de uma renovada (in)comunicabilidade cênica.

Um ciclo de Diálogos com renomados estudiosos da arte contemporânea, oriundos de disciplinas como a Literatura, as Artes Visuais, as Artes Cênicas e o Audiovisual, oferecerá ao público um panorama das premissas filosóficas e artísticas do Teatro Visual, e oficinas gratuitas investigando o lugar do intérprete na cena contemporânea através do estudo de caso beckettiano, em personagens fragmentados, estilhaçados, desprovidos da unidade física e/ou intelectiva – o “sujeito menos”; ou por meio do estudo demorado da dramaturgia que implode a ação e subverte os paradigmas que eram sustentáculos do teatro tradicional no Ocidente, por meio da peça Esperando Godot, completarão o objetivo artístico e pedagógico da presente ocupação.

Núcleo de Pesquisa Resta Pouco a Dizer

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