O projeto Teatro Visual: o que ainda não tínhamos visto? apostou, desde sua idealização, no potencial que uma programação composta por diálogos, peças, performances e oficinas possui. A amplitude de territórios a serem explorados pelo tema proposto ganha consistência em sua totalidade.
O Núcleo Resta Pouco a Dizer, com o objetivo de oferecer ao público brasiliense uma programação acessível, mas que também despertasse inquietações, iniciou o ciclo de atividades com peças curtas e performances seguidas de diálogos conduzidos por estudiosos da cena artística contemporânea. Dessa forma, o que acabou de ser assistido adquire força a partir de questões suscitadas nesse espaço.
Após a abertura do projeto, que reuniu mais de 500 pessoas na FUNARTE Brasília, os outros dias seguiram com intensa presença de um público participativo, composto, em sua maioria, por alunos e professores de áreas relacionadas, admiradores do trabalho dos Irmãos Guimarães e curiosos do enigmático autor central do projeto: Samuel Beckett.
Antônio Araújo (USP-SP), fundador do Teatro da Vertigem e responsável pelo diálogo no sábado seguinte à abertura (foto), ilustrou sua fala sobre a encenação performativa com vídeos que conectaram o público com as idéias de entrecruzamento de linguagens, work in progress e a autobiografia do encenador, questões bem representadas no famoso trabalho apresentado no Festival D’Avignon “La Chambre D’Isabella”.
A peça curta de Samuel Beckett, Ir e Vir, com direção de Adriano e Fernando Guimarães abriu o domingo com a estranheza que esse texto/imagem costuma causar. Três mulheres, um círculo de luz que se dissipa a medida que se afasta do centro e um segredo que não se revela. Flo, Vi e Ru, personagens suspensas no tempo e espaço, nenhuma verdade, apenas lembrança. As bordas acinzentadas desse lugar indefinido, os chapéus que cobrem o olhar e as vozes despersonalizadas, são elementos que metaforizam o conceito de “Interterritorialidades” proposto por Lílian Amaral (USP-SP), que conduz o diálogo do dia. A cena contemporânea e suas trocas fluidas, onde não se cabe definições, nada é só aquilo que o nomeia e os limites estão em trânsito.
Em consonância com o que foi abordado nos dias anteriores, Marília Panitz (UnB-DF) fecha esse ciclo de diálogos iniciais. Conhecedora do trabalho dos Irmãos Guimarães com a obra de Samuel Beckett desde seu início, há quase 15 anos, Marília, parte do ponto de vista das Artes Visuais para nos conduzir a uma leitura fascinante em torno de um elemento recorrente nas encenações de Adriano e Fernando: as caixas cubo, que vimos tanto na performance Respiração -, no sábado, quanto nessa segunda-feira, em Respiração +. Na retrospectiva que Marília Panitz faz das peças, performances e instalações dos diretores inspirados pelo universo beckettiano, ela explora os conceitos e referências que culminam nessas caixas como representação de um espaço negativo, que retira o personagem de uma narrativa e o emoldura em um espaço de suspensão. Essas caixas são preenchidas de um silêncio que se pode escutar, que muito diz, apesar do pouco que se resta a dizer.
Essa foi apenas a primeira semana de ocupação do Núcleo Resta Pouco a Dizer em parceria com o grupo Pigmalião Escultura que Mexe (BH). As oficinas I e II começaram e. em Março, a programação conta ainda com um diálogo sobre a construção do movimento no teatro de marionetes e uma oficina sobre a composição da marionete e a construção do movimento, ministrada pelo grupo mineiro. Para participar da oficina III envie um e-mail para teatrovisual@gmail.com com seu currículo artístico resumido.





